Uma cena mórbida, distorcida num cenário nítido. Era simples, mesmo para mim, interpretar o que ocorrera. Corpos com expressões tristes, exalando a tristeza pelos movimentos. Até seus minúsculos orifícios, seus poros, transpassavam a idéia de uma melancolia constante. A pergunta que se mantinha fixa, aérea, referia-se ao motivo. O que mais acumularia pessoas em frente a um buraco como aquele?
Uma remota butique de antiguidades. Um grande letreiro definhado, com luzes de neon, algumas letras apagadas e outras piscando. Nenhuma acesa totalmente, como seria de se esperar de um letreiro. Piscavam num ritmo desconhecido, formavam uma melodia curiosa. Uma vitrine sórdida, imunda, preenchia toda a parede à mostra, abaixo do letreiro. Marcas no resto de parede que se seguia após a vitrine, até o chão, desaconselhavam qualquer aproximação. Bêbados, provenientes de um dos vários bares que cada esquina parecia ter, quase obrigatoriamente, se aventuravam a urinar naquela mureta todas as noites. Noites em claro, proclamando murmúrios incompreendidos, garrafas em ambas as mãos. Talvez de pinga barata, nada custoso. Somente a certeza de que nada, por alguns escassos instantes, faria sentido. A calçada, transformada em nuvens cor de rosa. A embriagues era a saída para que a imaginação substituísse a realidade. A timidez de ser quem era, perdida entre os indícios de uma nova personalidade que aparecia, mostrava-se. Então, a náusea.
Coincidentemente, estava parado em frente à loja de letreiro melodioso. Parado na outra calcada, estava um mendigo. Poderia apostar o que fosse que ele, em alguma ocasião, já deixara sua marca naquilo que costumava ser uma mureta pintada de amarelo. Não um amarelo comum, primário, mas sim um tom que tendia pro bege. De qualquer forma, passou pela minha cabeça que talvez a multidão estivesse encarando um cadáver. Mais que isso: um recém-falecido. Conforme a multidão se dissipava, consegui enxergar mesmo não tendo saído do lugar. Preparado para uma cena forte que provavelmente se tatuaria em minha memória, esfreguei as pontas dos dedos umas nas outras, impaciente. E então, foi só isso.
Não posso negar o desapontamento que me invadiu no instante em que meu cérebro processou o que meus olhos estavam transmitindo. Um pequeno macaco fantasiado, eu diria um mico, dançava para o resto das pessoas que agora formavam um semicírculo em volta dele. De inicio, não entendi o por que de um mico atrair tantas pessoas. Mas então, pensei no que me atraiu naquela situação. Compreendi, consenti. Não era o mico ou a multidão que fazia com que as pessoas saíssem de seus caminhos. Eram apenas desculpas para que o fizessem. E a melancolia...bem. A melancolia era a certeza de que, em algum momento, teriam que seguir em frente.
Não tenho certeza se isto seria uma cronica ou um conto. Talvez você possa me ajudar a tirar essa duvida.
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