quarta-feira, 11 de março de 2009

Finalmente Pode Enxergar

      Neumar não chorava; não podia. Sentado sob a maior arvore que encontrara, protegido pela sombra, lamentava-se novamente, como todas as outras vezes que o fizera. Atormentava-se, admirando miseravelmente a família da qual uma filha e Irma havia tirado. Encarava a grama semi-morta. Só pensava no erro que havia cometido. Achava que já tinha superado, afinal não podia se deixar abalar por alguém que nem chegara a conhecer como gostaria. Porem, a mudança de base repentina que tivera de fazer o reencontrou com o passado. Nas mãos, o pano que envolvera a boca de seu único arrependimento.
      Vinte e poucos anos, cabelos compridos e negros. Estirada no chão, a pele bronzeada a mostra acentuava suas curvas. Na boca tinha uma mordaça de pano, ensopada de suas próprias lagrimas. Preparava-se para o pior; esperava o pior. Neumar entrou na sala com aquele jeito de bandido que carregava muitas mortes nas costas. Rodeado por seus companheiros, não resistiu soltar uma leve risada ao encarar a moca que beijava o chão frio e sujo. Preparava-se para o melhor; desejava o melhor.
     Foi quando ele finalmente a enxergou. Neumar nunca enxergava suas amantes, apenas as olhava sem interesse e as sentia, ah, como sentia. Não lembrava-se de nenhuma; ignorava seus rostos. Mas aquela menina, ali, na sua frente, ele enxergara. As costas lisas, os ombros delicados. A bunda levemente arrebitada, acompanhada das pernas num traço perfeito.
- Tampa os olhos da vagabunda! – disse para seus companheiros, surpreendendo-os. Nunca fizera isso antes. Sempre deixava que suas vitimas o vissem, para que sonhassem com seu rosto e sentissem medo. Essa era a resposta também, do por que não as matava. Neumar queria ser temido.
- Mas...Por q...ok. – respondeu o mais próximo da porta, saindo logo em seguida. Depois de alguns segundos, retornou e, com outro pano, vendou a garota.
      Vanessa estava dentro do ônibus que pegava para voltar do trabalho. Era vendedora numa loja que distribuía material para salões de beleza. Não ficava muito longe de sua casa e isso era o que mais gostava sobre seu trabalho, sem contar o desconto que tinha nos produtos de beleza. Era sexta-feira quando foi raptada, um quarteirão de sua casa. Estava exausta, depois de um dia intenso na loja. Seu único desejo era jogar-se na cama macia que havia arrumado antes de sair. Porem, só pode fazê-lo mais tarde e não com a mesma sensação de conforto que acompanhar-a-ia anteriormente.
Passara-se dois anos e Neumar percebia que não tinha sido abandonado por aquela lembrança. Ao encontrar aquele trapo sujo, no fundo da gaveta daquele armário que ninguém mais abria, toda a sensação de remorso o invadira.
      Lembrava que em meio a gemidos falsos e outros nem tanto, que reproduzia para que mantesse sua imagem perante seus comparsas que assistiam, escutava os gritos abafados pelo pano que a menina proferia. Alguns dias depois, ainda conseguia escutá-los, como se fizesse parte da noite do mesmo jeito que os grilos e os choros de criança já o faziam.
      Hesitou procurá-la, mas o fez. Já era tarde demais. Infectada pelo vírus que a envolvera naquela sexta-feira, morrera. Chegou a tempo de seu velório, no cemitério de Santa Justina, próximo a seu novo ponto. Dando uma desculpa qualquer, Neumar saiu sozinho. Encostando-se na maior arvore, assistia de longe o enterro da única que enxergara e da única que arrependera corromper. Aquele mero traficante, afinal, preocupou-se, desejou, arrependeu-se.

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