Ele era publicitário, acima do peso, frustrado com a rotina que insistia em manter todos os dias. Ela era advogada, amante das frutas e legumes, rata de academia. Ele era dissimulado, inconstante. Ela era metódica, disciplinada.
Aquele era um sábado frio, nublado, típico de outono. Ele ia entregar o rascunho de uma nova propaganda da Coca Cola que levara a semana toda para desenvolver. Ela iria trabalhar aqueles quilos que ainda estavam em seu caminho na balança, correndo na esteira. Os dois se encontraram ás 10 horas e 45 minutos e 57 segundos. O lugar era o elevador do prédio, que parecia ter 200 andares de tão demorado. Ela se maquiava no espelho, ignorando a presença dele. Ele assistia a mudança de andares no visor do elevador, ignorando a presença dela. Então, o elevador parou. Ela se assustou. Ele piscou freneticamente, enquanto decidia se falava alguma coisa ou não. Ela falou.
- Que horror, o que aconteceu?
Ele, usando toda sua percepção e capacidade de formar frases inteligentes, respondeu.
- O elevador parou.
Ela ignorou a obviedade. Ele sentiu uma gota de suor escorrer pela testa. Os dois ficaram em silêncio. Então, uma voz. Era o porteiro.
- Er...aconteceu um problema na fiação do elevador. Daqui uns minutos ta tudo funcionando.
Ele começou a respirar mais alto. Ela agradeceu o porteiro. O elevador fraquejou, descendo alguns andares. A luz começou a piscar. Ele sentia o corpo tremer. Ela mantinha a calma, se apoiando nas paredes para não cair. Ele se perguntava o que raios fazia ali. Ela pensava que não daria mais tempo de fazer 1 hora de esteira antes do trabalho. Os dois permaneciam imóveis. O silêncio.
Depois de dois minutos, ele sentia vontade de dizer alguma coisa. Ela percebia o medo dele e tinha vontade de consolá-lo. Ele falou.
- Hm...quanto tempo a gente fica aqui, hein?
- Não sei. Tem alguma coisa pra fazer?
Ele, desacostumado em interagir com as pessoas, engoliu um seco. Ela, assustada com a própria curiosidade, sorriu amarelo. Ele respondeu.
- Ah, eu...tenho um negócio pra entregar. Eh, sou publicitário! E você?
- Sou advogada.
Ele ergueu as sobrancelhas. Ela repetiu o sorriso. Os dois sentiram o elevador se mover normalmente. Ela falou.
- Bom, foi um prazer.
- Não posso concordar, não gosto de elevadores.
Ela riu. Ele riu.
- Até logo!
- Até!
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