segunda-feira, 1 de junho de 2009

Semáforo

Dez e meia da noite e eu na rua, no passageiro de um Honda Fit cinza, quase novo. Era rotina, a cada quinze dias, aos domingos, eu fazer aquele percurso de volta para casa. Apesar de guardar bem o caminho, nunca me lembrava dos nomes das ruas. As vezes, pegava no sono. Mas naquele domingo de fim de maio, não dormi.

Semáforo. Oscilando entre verde, amarelo e vermelho, no alto da faixa de pedestre, não tinha significado para alguns. No cruzamento da Bela Cintra com a Matias Aires, o vermelho fez meu pai parar diante das medianas faixas brancas pintadas no asfalto. Porem, não fez parar o motoqueiro que passou como um foguete, ao meu lado. Ele não usava capacete.

Verde. Atingindo uma velocidade abaixo do limite, continuamos nosso caminho. Pensei em calcular quanto tempo levaria para chegar em casa, aproximadamente, mas me cansei ao sequer pensar em multiplicação. Reparei nas garotas de programa, conversando na esquina. Estava frio, mas quem as visse numa foto, por exemplo, acreditaria que eram sólidos 40 graus que envolviam a cena. Me perguntei por que não colocavam uma malha, pelo menos. De nada adiantaria minha analise desse comportamento, pois a lógica que este envolve esta longe do meu alcance. Aqui, trato de outro.

Algumas quadras adiante, identifiquei um certo burburinho. Inclinei-me no banco, tentando enxergar.

-       Algum acidente, será? – perguntou meu pai.

O transito, cada vez mais lento, aproximava o carro da multidão que se formava num trecho da rua. Perto do semáforo, que não alternava o movimento, me hipnotizava a mudança de cores: verde, amarelo, vermelho. Esperava, impaciente, uma proximidade considerável do circulo curioso que tomava conta de parte da rua e da calcada.

Minutos depois, pude ver pelos buracos entre as pessoas. Um homem estirado no chão, envolto em sangue. Seu rosto parecia afundado no concreto e o resto de seu corpo estava estendido no asfalto. Os pedaços do que parecia ser uma moto estavam jogados perto dali. Não vi nenhum capacete.

Ao descer o vidro, pude escutar o cochichar das pessoas. Umas afirmavam que ele estava alcoolizado. Outros, que estava bem acima da velocidade. Uma mulher exclamava que ele voou longe, ate cair de cabeça. Eu tinha uma teoria. Era o motoqueiro, aquele que passara correndo e ignorara o semáforo. Em alta velocidade, talvez conseqüência da bebida ou da pressa, não viu o gigantesco buraco na rua. O resto, não preciso nem falar. Meu pai disse que era praga dos vários semáforos que ele deve ter ignorado. Talvez fosse. O fato é que eu nunca mais deixaria de prestar atenção neles: sempre verdes, amarelos e vermelhos.

todos os direitos reservados, não copie esse texto

Um comentário:

  1. o.o
    voce escreve MUITO bem
    adorei sempre voltarei aqui.
    passa la no meu, bejo

    ResponderExcluir