terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Carvalho

“Revolução! Restauração!” Essas e muitas outras palavras, principiadas de R ou não, dividiam espaço na boca gananciosa do gaiato burguês sedento de atenção que erguia os braços e os olhos no meio da praça, no meio do Outono.
As folhas já haviam saltado quase todas dos galhos secos e lavavam o chão sujo de pisadelas direcionadas à um destino. Como em toda manhã, o moleque fora buscar o leite na padaria e, seguindo o costume, aproveitara para contemplar o majestoso carvalho que assistira a cidade se formar em torno de si. Uma cidade que, agora, ambos assistiam afundar em desgraça.
Bento da Silva era nascido desde 1989, catequizado desde 1998 e estudado desde 2006. Fizesse o que fosse, teria o apoio de sua família formada apenas por mãe e três irmãs. Apesar de todo o incentivo que recebera para que fosse morar em São Paulo, optou pela comodidade do conhecido e permaneceu em sua terra. Não mais estudaria e sim trabalharia, cooperando com o sustento da família. Sua mãe tinha o coração apertado, devido a decisão do menino, receosa de que pai e filho acabassem por ter o mesmo destino.
Cansado da vida de sempre, José da Silva, ex-marido, se viu enfeitiçado pela última chance de aceitar a oportunidade que perdera na juventude. Acompanhando viajantes de mula, fugiu com a própria roupa do corpo deixando mulher e filhos para trás. Lurdes temia que o filme fosse rebobinado e a cena, repetida. Como solução, desaprovava qualquer mulher que Bento chegasse a gostar, as protegendo de um destino similar ao seu.
Afim de anteceder o momento em que o leitor irá cansar de carregar a pergunta “por que a desgraça?”, explicar-lhe-ei sem rodeios. Antes de Bento, mas não antes de Lurdes e de José, foi instaurada uma prefeitura fixa que nadava contra os ideais democráticos. Na verdade, era um governo disfarçado cujos pontos e as vírgulas todos reconheciam. Na época das eleições, os partidos concorriam em vão, ganhando sempre o mesmo e velho Partido do Povo. Ninguém acreditava na simples coincidência, mas não havia um só que se aventurasse em contrariar. Então, pergunta-me, por que a desgraça seria presenciada especialmente agora? Bom, para responder-lhe, teremos que viajar alguns passos pela linha do tempo que traçamos em curvas até agora.
No início de março, caminhando lado a lado com o outono, veio a seca. Assassina e impiedosa, desolou o restante de esperança dos que sobrevivem da terra, arrastando consigo a fome e a pobreza. Como estes são maioria na cidade, a população foi afetada e mergulhada em desgraça. A prefeitura nada fez para amortecer a crise, assim como a maioria das prefeituras, governos e presidências que conheço. Com o passar do tempo, as pessoas se acostumaram ao convívio com tais situações. Mas Bento, ainda era daqueles que sonhavam.
Sim, para que existam os descrentes deve existir os incrédulos, pois são eles que lhes dão a caracterização do adjetivo. Afinal, nada se pode ser sem um oposto, uma contradição. Se todos fossemos desacreditados, no que nos basearíamos para criar o significado da palavra? Pois nos baseamos no contrário. Não existe o eu sem o você, assim como não existe o nós sem o eles. Bento era o antagonista de todos os companheiros de cidade. Ele e o carvalho centenário que o observava.
Apesar das ações ensaiadas, aquela manhã diante do carvalho parecia-lhe ostentada por um ar de não-sei-o-que misterioso. O menino gastara mais tempo esquentando o banco no qual sentava usualmente, deixando o carvalho impaciente. Auxiliado pelo vento, forçou-se a derrubar a última folha. A pequena, dançando uma melodia única, rodopiou até pousar no ombro de Bento. O moleque recolheu-a com delicadeza, apreciando-a entre suas mãos de menino-homem. Não tardou a segredar à folha suas aflitivas opiniões de quem sonha, ao que ela lhe respondeu: “Grite”. Movido de um impulso próprio e um incentivo do diálogo, que na verdade não era nada além de si mesmo consigo, Bento gritou as palavras que decoram a primeira linha desse escrito. Peço-lhe que refaça os passos, caso não se lembre: a preguiça dos dedos me impede de fazê-lo eu mesmo.
Os ocupados e desocupados ao redor, pararam estáticos diante de um menino em pleno monólogo revolucionário. Assimilando as palavras, tornaram-se cabisbaixos. Temiam a opressão das palavras em seus ouvidos. Antes que servissem de estimulante para o locutor das idéias, seguiram os passos. Bento permaneceu imóvel, entorpecido. Um homem, o mais próximo, proferiu-lhe um pedido de silêncio e calma. Seu ouvido ensurdecera. Retornando, após alguns segundos, virou-se para a árvore. Atirou-lhe um pedido de desculpas e um sorriso tímido, envergonhado, virando-lhe as costas para o nunca mais. Na semana seguinte estava em um ônibus para São Paulo, enquanto a árvore permanecera lá. Mas não por muito tempo mais, pois os cidadãos suspeitaram de suas manifestações, substituindo-a por uma nova farmácia.
O que quero dizer? Bom...uma sociedade só pode ser considerada perdida, quando deixa se perder. Sempre existirão os que se consideram perdidos e os que fazem de tudo para se encontrar. Qual dos dois você pensa que é?

Nenhum comentário:

Postar um comentário